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A saúde perfeita não existe


Esta é a minha tradução de um excerto da obra de Tom Bisio "A tooth from the tiger's mouth". Partilho convosco este texto pois penso que é pertinente para a conversa das diferenças entre a visão ocidental e oriental do corpo humano, saúde e estilo de vida. Resta-me desejar-vos uma boa leitura.



Capa da obra "A tooth from the tiger's mouth" de Tom Bisio
Capa da obra "A tooth from the tiger's mouth" de Tom Bisio


"A saúde perfeita não existe. O simples conceito de saúde perfeita é uma ilusão. Para muitos, saúde significa não sentir nenhuma fraqueza ou dor. Na verdade, saúde é um ato de equilíbrio, uma série de pequenas mudanças para manter a sensação geral de estabilidade. Por esta razão, quando o corpo perde a estabilidade, as intervenções médicas devem ser escolhidas cuidadosamente, com o objetivo de devolver o corpo ao seu estado de equilíbrio. 


No ocidente, a doença, fraqueza e dor são vistos como algo mau, e são tomadas medidas de forma a retificar a situação. Na medicina moderna, as intervenções tomam, muitas vezes, a forma de analgésicos, antiinflamatórios, antibióticos, antidepressivos, ou cirurgia. Estas intervenções podem levar a uma mudança nos sintomas. Estes novos sintomas, por sua vez, podem também precisar de correção. Cada mudança pode ser vista como uma entidade separada e cada conjunto de sintomas como uma doença ou síndrome diferente. Cada uma é uma doença para ser enfrentada e derrotada.


Enquanto doenças e síndromes proliferam e a tecnologia usada para as tratar torna-se mais complexa, a especialização torna-se uma necessidade. A própria natureza da especialização na medicina moderna requer que o especialista trabalhe dentro dos limites do seu conhecimento, muitas vezes sem noção do todo. A noção do paciente do seu próprio corpo e a interconectividade do todo é atropelada pela expertise do especialista, que está preocupado apenas com aquela parte.


Enquanto se fazem novas descobertas e avanços, sabedorias antigas são vistas como antiquadas e são descartadas. Embora isto parece fazer sentido, isto pode efetivamente levar a mais confusão. O que é visto como “bom” num dia pode ser “mau” agora. Estas mudanças podem ser tão rápidas que nós esquecemo-nos que elas aconteceram. Quando eu era mais novo, a manteiga era vista como uma grande culpada nas doenças cardíacas e a margarina era consumida por todas as famílias que eu conhecia. Estudos mais recentes indicam que a margarina é bem pior para as artérias do que a manteiga, mas uma geração inteira comeu margarina por 20 anos.


A percepção do que é saudável muda com cada estudo novo que surja, mesmo quando estudos mais recentes contrariem o anterior. Mais recentemente ainda foi a descoberta de que as mulheres que tomam suplementos hormonais depois da menopausa aumentam o risco de desenvolver demência, doença cardíaca e alguns tipos de cancro. Neste caso, usar medicamentos para “voltar atrás do tempo” prejudicou os ritmos e sabedoria interna do corpo. Milhões de mulheres tomaram hormonas para prevenir afrontamentos e osteoporose, problemas que a medicina chinesa tratou por séculos com alterações na dieta, exercício e suplementos herbais.


A Medicina moderna é muito boa a entender a doença mas não nos dá as ferramentas para compreender a saúde. Não consegue dar ideias claras sobre o que é a saúde e isso acontece pois não tem um padrão para seguir. A medicina tradicional chinesa, pelo contrário, é uma compreensão da saúde que se estende até ao livro mais antigo, o Huang Di Nei Jing, o clássico do imperador amarelo (terceiro século antes de cristo). Estas ideias nunca se tornaram antiquadas apesar dos avanços tecnológicos da medicina ocidental. Porquê? Porque em tempos antigos, os chineses observaram as mudanças constantes que ocorriam no corpo humano em relação às estações, clima, dieta, exercício e mudanças emocionais. Destas observações nasceu um sistema de medicina que conseguiu ver o holismo fundamental do organismo humano e a sua interconectividade com o ambiente em redor. Então a medicina chinesa oferece uma perspectiva única em relação a manter um equilíbrio harmonioso no corpo humano.


A medicina moderna tem uma tendência para ver disfunções que surgem de um estilo de vida não-saudável como sendo normais. Se um paciente com 50 anos tem artrite no joelho, é considerado normal. Ele é informado que deve tomar uns anti-inflamatórios ou analgésicos e pode voltar ao seu jogging. Ao disfarçar a dor desta maneira, muitas das vezes provocamos mais danos. Se o joelho é muito problemático, a substituição do joelho é sempre uma opção.


Ver saúde mediana como “normal” combinado com a especialização intensa da medicina moderna levou-a a uma aproximação filosófica próxima daquela de um mecânico de alto nível. Há partes que se desgastam e são reparadas ou substituídas. Cada paciente deixa de ser um indivíduo e passa a ser um modelo idêntico que irá passar pelo mesmo procedimento para o mesmo problema.


Outra visão é a de que o nosso corpo está feito para durar uma vida se o tratarmos bem, que cada indivíduo tem uma quantidade diferente de energia vital, e que é esta energia vital que muitas vezes determina como corpos diferentes vão reagir a diferentes doenças e quão rápido vão recuperar. A medicina chinesa é baseada no conceito de Qì (energia vital), e é o Qì, mais do que qualquer outra ideia que levou os chineses a adotar uma filosofia de medicina diferente daquela que se desenvolveu no ocidente. Médicos antigos chineses focavam os seus tratamentos não só na expulsão da doença, mas também na harmonização e nutrição do Qì dos seus pacientes. Isto levou a medicina chinesa a manter como padrão os indivíduos que eram saudáveis ​​até à velhice pois levavam vidas harmoniosas e equilibradas. Assim, os chineses desenvolveram princípios de medicina baseado nos altos padrões de saúde, bem como a performance mental e física.


Um guerreiro chinês montado num tigre. Tingido à mão por um artista chinês
Um guerreiro chinês montado num tigre. Tingido à mão por um artista chinês

Tradicionalmente, a preservação da saúde através de bons hábitos de vida era considerada a forma mais elevada de medicina. A intervenção por médicos, seja por plantas, medicamentos ou práticas físicas eram mantidas ao mínimo para restaurar o equilíbrio com o mínimo de efeitos secundários, e os médicos sentem que falharam caso um paciente ficasse seriamente doente.


Só pensar desta maneira oferece uma profunda alternativa. Se vivermos corretamente e usarmos o conhecimento médico de forma apropriada e inteligente, podemos viver vidas saudáveis e ativas até em idade avançada. Umas das minhas memórias inesquecíveis da China é o grande número de idosos acordados de manhã a exercitar, demonstrando níveis de flexibilidade e força que normalmente associados com atletas muito mais jovens.


A medicina chinesa usa métodos que não são danosos ao paciente ao tentar harmonizar as funções naturais do corpo e estimular a sua capacidade interna de curar. Estes métodos não são místicos nem esotéricos, são baseados numa aproximação de senso comum para o diagnóstico e tratamento. Um professor de artes marciais na Chinatown de Nova York perguntou, “Se o senso comum é tão comum, como é que são tão poucas as pessoas que o têm?. Muitas vezes negligenciamos o nosso senso comum quando estamos com medo e com dores, e vamos a correr tomar medicamentos ou eleger a cirurgia como tratamento de primeira escolha. Isto não é senso comum quando temos outras alternativas. Tomar medicamentos para curar um problema e causar outro não faz muito sentido, e ainda assim as pessoas fazem-no diariamente. É senso comum observar o corpo como um todo interconectado. Pesquisas de última geração feitas por médicos ocidentais até confirmam esta visão que é a base da medicina chinesa, e ainda assim as pessoas ouvem todos os dias que as suas lesões crônicas do ombro nada tem a ver com a sua dor na anca. Os meus pacientes ficam constantemente espantados quando eu confirmo as suas próprias percepções de que dois problemas podem estar ligados. Esta confirmação da sensação que eles próprios sentem é indispensável para que eles entendam como os desequilíbrios ocorrem e como podem curar ou preveni-los."



Como sempre, alguma dúvida ou critica, podem entrar em contacto pelas vias usuais. Obrigado.

 
 
 

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